Quando se tem o poder, dificilmente alguém lhe dirá algo com sinceridade. Farão de tudo para ganhar sua confiança, darão presentes, dirão coisas maravilhosas... e quando acharem que existe algo parecido com amizade entre vocês, pedirão favores. Impossíveis. Intermináveis. Principalmente para mim.
Perdi a conta do número de pessoas que vieram a mim com a mesma intenção: buscar proteção. Acreditavam que se eu não permitisse, Dante jamais os machucaria. Prometeram-me lealdade, sacrifício e dinheiro. Alguns até ousaram fazer ameaças. Tolos... Como se alguém como eu precisasse de lealdade, algum sacrífio e principalmente dinheiro. Como se ameaças de pessoas comuns me assustassem...
Não nego que alguns me divertem com seus pedidos e promessas estúpidas, porém na maior parte das vezes, só conseguem me irritar. Sempre que vejo o aglomerado de pessoas esperando-me do lado de fora, sinto vontade de matá-los. Claro que não é prudente fazê-lo, afinal, de que vale ser uma rainha sem ninguém para me temer? Portanto, saio com a cabeça erguida e procuro ignorar a maioria dos comentários. Vez ou outra respondo alguma coisa e faço com que saiam do meu caminho. Quase sempre funciona, já que a maioria treme só de ouvir minha voz.
Até hoje, só houve um pedido que realmente mecheu comigo. Um garoto de aproximadamente 8 anos me seguiu em silencio durante horas. Manteve uma distancia segura, porém perceptiva, de forma que eu não poderia deixar de sentir que estava sendo seguida e que ele não me perdesse de vista. Quando finalmente me cansei daquele joguinho idiota e perguntei porque estava sendo seguida, ele apenas chegou mais perto e segurou minha mão. Pude sentir que sua pele era áspera e bastante sofrida. Suas roupas eram terrivelmente surradas e parecia que ele não conhecia água ou sabão. Seus pés pisavam com firmeza na neve fria, mesmo que descalsos.
Caminhamos em silencio por alguns minutos. Minha mente era bombardeada por perguntas segundo a segundo. Quem era aquele garoto? Teria família? Sabia quem eu era? Se sabia, por quê não estava com medo? Para onde estava me levando? Por quê eu estou sendo levada?
Chegamos a um beco não muito longe do castelo. Ali, a neve era tão densa que mal podíamos andar. O garoto me apontou uma caixa e fez um sinal com a cabeça que eu interpretei como "vá em frente". Dentro da caixa havia um pequeno cachorro. Seu pelo era tão ralo que eu podia ver sua pele, roxa pelo frio. Havia cortes em suas patas e em seu fucinho. Ele não se mechia.
Fiquei parada ali por alguns intantes, sem entender o que estava acontecendo. Olhei o garoto nos olhos, buscando uma resposta. Ele me olhou de volta e percebi que seus olhos eram tão negros quanto os meus.
-Ele não está respirando. - foi o que pude ouvir. Não era um pedido. Não era uma promessa.
Naquele momento eu pude perceber que aquele garoto era tão solitário quanto eu. Provavelmente vivia naquele beco absurdamente frio, dormia de baixo da neve e talvez já nem sonhasse mais. Aquele cachorro era seu tesouro mais precioso, talvez o único. E ele não estava respirando.
Ainda hoje não sou capaz de descrever os sentimentos que surgiram em meu coração naquela tarde. Eu quis correr, gritar, sumir. Porém, meus pés não saiam do lugar. Eu não me reconhecia. Estava mesmo sentindo compaixão por aquele garoto?
Sem pensar, coloquei as mãos sobre o cachorro e proferi algumas palavras quase inaudivelmente. Alguns instantes depois, pude sentir que seu coração voltara a bater. Senti aquele pequeno corpo se contorcendo sob minhas mãos, como se acabasse de acordar depois de uma longa noite de sono. Senti seu pelo aquecendo levemente meus dedos. Senti sua respiração.
Afastei-me lentamente da caixa, enquanto o garoto tomava o pequeno animal em seu colo. O abraço poderia ter durado uma eternidade, eu não saberia dizer. Quando ele me olhou novamente, havia uma gratidão indescritível em seus olhos. Havia uma sinceridade absoluta que eu não acreditava que era possível existir. Havia uma promessa: lealdade. E essa, eu senti que era verdadeira.
Nem me dei conta de como cheguei ao castelo. Ainda hoje, lembro-me exatamente daqueles olhos profundamente marcados pela dor naquele pedido silencioso por ajuda. Não perguntei seu nome. Não lhe dei comida, abrigo, conforto. Não lhe dei proteção. Tudo que aquele garoto me pediu foi pra que não deixasse que seu amigo fosse embora. Ele não se incomodava com o frio, com a fome, com a dor... mas a solidão faria todo o resto parecer grande demais para que ele pudesse suportar.
Nunca mais os vi. Não sei se resistiram ao frio e a fome. Só tenho certeza de uma coisa: eles ficaram juntos até o fim. Enquanto um estivesse ali, o outro resistiria. Nunca fui capaz de compreender esse tipo de ligação entre dois seres vivos. Algo tão profundo que nem mesmo o mais sábio dos homens saberia descrever com exatidão.
Talvez essa tenha sido a única coisa verdadeiramente boa que eu fiz, sem nem saber porque. Por incrível que pareça, eu não me arrependo. Nunca mais fiz nada por ninguém. Cumpri as ordens de execussão com louvor, continuei ignorando as promessas, os pedidos, as lágrimas... Se me perguntar a razão de ter ajudado aquele garoto, eu diria que foi porque ele foi o mais próximo de mim que eu já pude chegar. Era como um espelho. A única promessa que realmente foi cumprida... e ás vezes, ainda posso sentí-lo em algum lugar bem no fundo do meu coração.
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Hey ppl! Tá aí mais um cap. Meio triste, né? :(
Gostei bastante de escrever esse, não sei dizer porque.
Bom, espero que gostem e não esqueçam de comentar. ;3
beijos mil ~
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
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MEIO triste? ;___________;
ResponderExcluirAchei que o cachorro tinha morrido ii
Melhora cada vez mais de cap em cap *-*
Rainhaa, nossa, to impresioando, tá muito legal a história! Serião! bjos rainha!
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