Você ainda é capaz de se lembrar do cheiro da sopa que sua mãe fazia quando você adoecia? Do cheiro da terra molhada após uma tempestade? Lembra-se do som das gotas da chuva batendo delicadamente em sua janela? Da melodia delicada que a brisa compunha todas as manhãs enquanto os pássaros a complementavam com notas tristes, porém incrivelmente belas?
Confesso que não me lembro desse tipo de coisa há muito tempo. Desde aquele dia nublado, toda a doçura do mundo ficou pra trás. Minha memória foi tomada por um único cheiro que lembra fortemente ferrugem: sangue. A bela canção de todas as manhãs deu lugar a uma orquestra de gritos frios e cortantes. As cores que eu tanto admirei um dia agora são apenas borrões em meu passado.
Ainda é estranho contemplar o meu reino e sentir que os que ali vivem respiram o medo e que muitos morrerão suplicando perdão. Por mais que eu não me importe com sentimentos e essas tolices, não consigo esquecer da face daquela garotinha amedrontada enquanto o mundo ao seu redor se cobria de um vermelho escuro e daquele cheiro que lembra morte. Ela manteve seus olhos em mim até o ultimo guerreiro cair. Enquanto a multidão corria e gritava, ela apenas esperou. Não lutou. Não chorou. Apenas encarou-me com aqueles olhos azuis, talvez esperando que eu lhe estendesse a mão e a acordasse daquele pesadelo.
Certamente aquele seria apenas o primeiro deles. Resistir era inútil e todos sabiam disso. Tinhamos o poder, não precisávamos da razão. É verdade que quando tive a primeira vida em minhas mãos e a observei abandonando aquele corpo morimbundo lentamente tive a impressão de que o chão se abriu sob meus pés. Só não imaginei que seria tão prazeroso. Tão quente. Tão vivo.
Não entendo porque tantos temem a morte. Parece muito mais fácil quando tudo é escuro, sem sons ou cheiros que vez ou outra trazem um massacre de volta à sua mente. Ainda me pergunto o que teria acontecido àquela garota se eu a deixasse viver. Teria se tornado uma vingadora? Teria rendido-se ao poder dos mais fortes e curvado-se perante a mim?
Pensamentos assim não deveriam rondar minha mente. Matar ou morrer devia ser indiferente. Minha vida é unicamente voltada ao meu rei. Quando eu me tornei uma pessoa tão fria? E, por Deus, por quê eu ainda me importo?
Talvez essa dor que ocasionalmente incomoda meu coração seja o que chamam de tristeza. Se eu fechar os olhos, ás vezes ainda posso ouvir os gritos daquela tarde e sentir o cheiro do sangue ao meu redor... mas se os mantenho fechados por muito tempo, a face daquela garota sempre aparece para me atormentar.
Por essa razão, meus olhos estão sempre abertos. Sempre. Nada passará despercebido enquanto eu estiver viva. Por isso, ocasionalmente, eu me pego pensando em como seria o cheiro da chuva, da sopa e o som dos pássaros cantando junto com a brisa. Imagino como teria sido minha vida se eu não tivesse conhecido aquele homem. Imagino como seria se eu fosse exatamente como aquela garota que um dia me encarou tão corajosamente... como eu nunca fui capaz de fazer.
Ás vezes tenho a impressão de que ela não queria ser salva. Não de mim. Acho que ela esperava me salvar de mim mesma. É uma pena que fosse tão jovem e tão tola...
Quem sabe um dia ainda não nos encontremos de novo? Assim talvez eu ainda possa sentir aqueles cheiros e ouvir aqueles sons... e, com um pouco de sorte, apagar aquele dia da minha história.
Ser a rainha que matou uma população inteira por obediencia a seu rei certamente não é uma tarefa fácil. Muitos perguntariam o porque de eu não desistir. Mas é aí que a história toma um rumo diferente: sem desafios, a vida não vale absolutamente nada. Por isso, eu faria tudo de novo.
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Beijos mil ~
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
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Oh/
ResponderExcluirPor que você matou a garotinha? ;_;
ResponderExcluirPOR QUE!? Ó.Ò
*vira um vingador u.u
Hell Yeah!! huauhUHA, muito boa a continuação!! Quero ler mais e mais!!
ResponderExcluirParabpens mesmo rainha, vc escreve muito bem!!
Bjos!
Conflitos interiores semelhantes aos publicados por Machado. Gostei.
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